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14/08/12

"Congestionamentos - Uma crise generalizada de oferta no Brasil": Artigo de José Roberto de Souza Pinto


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Congestionamentos - Uma crise generalizada de oferta no Brasil"

José Roberto de Souza Pinto (*)

A partir da estabilização da moeda no Brasil, o Real, seguido por uma política de facilitar o credito e programas de distribuição de renda, o país iniciou uma fase de crescimento econômico sustentável, com um aumento do poder aquisitivo da população.

Certamente auspicioso se fosse acompanhado de ofertas de produtos e serviços para atender a esta nova demanda crescente da sociedade.

Não são poucos os exemplos deste desequilíbrio entre a oferta e a demanda, que se traduzem no não atendimento aos desejos e necessidades da população, mas principalmente na queda vertiginosa da qualidade com que os serviços públicos e privados são prestados.

Alguns destaques deste desequilíbrio e da má qualidade dos serviços prestados, podemos encontrar nos hospitais públicos, nos planos de saúde, na educação básica nas escolas públicas, nos transportes urbanos, nos serviços aéreos, nas infraestruturas aeroportuárias e nos serviços móveis celulares.

Os remédios teóricos para este desequilíbrio são o aumento dos investimentos para gerar infraestruturas e a capacidade de atendimento à demanda ou simplesmente o aumentos dos preços para reduzir a demanda, obviamente nos setores onde existe esta possibilidade.

Nas situações, onde a responsabilidade pela infraestrutura é do governo, seja ele estadual ou federal a alternativa de aumentar os investimentos tem sido buscada junto à iniciativa privada, com os projetos de privatização de estradas, aeroportos, metrôs e outros segmentos onde esta iniciativa pode ser aplicada.

Nos demais casos de responsabilidade dos governos, como nos setores de educação, saúde e transportes a evolução lenta das infraestruturas para atendimento a população, vem acarretando a queda da qualidade dos serviços prestados, o que é observado diariamente no noticiário e envolve praticamente todo o país.

Este é um fenômeno denominado congestionamento, que acontece quando a demanda ou as necessidades, por exemplo, da população são superiores a oferta de serviços e o resultado é um mau atendimento, fora de um padrão mínimo de qualidade e presteza.

Recentemente o caso da prestação dos serviços moveis celulares, teve grande repercussão na mídia, pela sua importância no dia a dia das pessoas, mas principalmente pela decisão da Agencia Reguladora do Setor de Telecomunicações, a ANATEL de paralisar as vendas do serviço até que se tenha um plano de recuperação da qualidade do serviço. Cabe lembrar que estes serviços vêm deixando a desejar, já há algum tempo. Interessante é que neste caso, estamos tratando de um setor privatizado desde 1998 e, portanto sem os limites de investimento tão comuns aos setores de infraestrutura ligados aos governos.

Neste caso do serviço celular as Empresas tinham os instrumentos para ampliar as suas redes de telecomunicações ou reduzir a demanda com planos de serviços com preços que não estimulassem o consumo ou mesmo paralisar as vendas antes que o serviço atingisse níveis baixos de qualidade.

Na questão das vias e transportes públicos no âmbito urbano existe um claro descompasso e desequilíbrio nas iniciativas e investimentos. A política de credito e redução de impostos facilita as aquisições de veículos o que potencialmente aumenta os congestionamentos urbanos, pela entrada agressiva de novos veículos em circulação. A não disponibilidade de transportes públicos incentiva o uso de veículos próprios. Os investimentos para melhorias e ampliação das vias públicas deveriam atender a este novo volume de trafego urbano que pela sua insuficiência completam o ciclo gerando os insuportáveis congestionamentos como consequências diversificadas no consumo de combustíveis e na poluição além de um estresse generalizado.

Todos estes exemplos são de congestionamentos na prestação de serviços a sociedade, o que nos permite concluir que existe no mínimo um desconhecimento das demandas e do seu crescimento. Este é um sintoma da falta ou deficiência no planejamento destes setores que não incorpora uma visão estratégica e não integra os diversos fatores de crescimento da demanda.

Esta deficiência pode ser decorrente da falta de prioridade com que os setores públicos ou privados estão tratando as atividades de planejamento e gestão dos recursos.

Entendemos como gestão dos recursos a permanente avaliação das vias de trafego, seja ele o volume de trafego telefônico ou de veículos nas vias públicas ou mesmo da população nos acessos aos transportes como metrô e outros meios. A gestão efetiva destes volumes, através de ações ordenadas como a identificação dos momentos de pico, pode gerar processos mais criativos visando deslocar nos casos possíveis estes picos e buscar uma distribuição menos anormal no volume de trafego e até priorizar recursos alternativos para estes momentos.

O despreparo dos profissionais no conhecimento e aplicação destes métodos de gestão ou a visão imediatista dos dirigentes pode ser o fator principal a ser vencido para transformar este quadro atual de desequilíbrio entre a oferta e a demanda.

Esta questão dos congestionamentos e da queda na qualidade dos serviços esta crescendo em importância em função da sociedade, que estava acostumada com padrões inferiores de qualidade, vem evoluindo para um estágio de consciência quanto aos seus direitos como cidadão e consumidor o que vai gerar constantes conflitos com os prestadores de serviços sejam eles públicos ou privados, assim como com as autoridades regulatórias e os governantes responsáveis por estes setores.

Em resumo temos um novo cenário onde a qualidade dos serviços passa a ser um fator que deverá motivar o pensamento prospectivo de longo prazo associado a uma gestão efetiva de recursos com o direcionamento dos investimentos e esta deve ser a prioridade dos gestores públicos e privados para evitar os congestionamentos e garantir uma qualidade na prestação dos diversos serviços prestados a sociedade, este é o mínimo que se pode esperar.

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(*) José Roberto de Souza Pinto (josersp@terra.com.br) (foto) é Engenheiro de Telecomunicações e de Sistemas Elétricos e Mestre em Economia, com cursos de especialização no Brasil e no Exterior , conferencista e painelista nos principais eventos de Telecomunicações realizados no Brasil , professor em cursos de regulamentação , autor de vários artigos e trabalhos , abordando as tendências de desenvolvimento do setor , as tecnologias , os serviços as redes de Telecomunicações e a regulamentação , e pesquisas sobre as tendências de evolução da regulamentação de Telecomunicações em outros Paises .
Tem experiência no setor de Telecomunicações adquirida nos últimos 35 anos nas Empresas do Sistema Telebrás , Embratel e Ministério das Comunicações no Brasil, na fase Estatal do setor e participação no processo de reestruturação do setor das Telecomunicações Brasileiras, tendo atuado em funções de Direção nas áreas de implantação e operação de redes de telecomunicações, marketing e comercialização de serviços e planejamento.
Após a privatização das Empresas , como Diretor na Embratel se concentrou nas questões regulatórias , tais como licenças de serviços e de radiofreqüências , contratos de concessão , universalização e tarifas , relacionamento entre as Empresas Prestadoras de serviços , envolvendo a negociação de contratos e acordos de interconexão das redes de Telecomunicações , faturamento e cobrança , uso de redes e serviços entre outros , e no relacionamento com as Agências Regulatórias e Governo, representando a Empresa junto a entidades e associações representativas do setor de Telecomunicações.
Atualmente como consultor em Telecomunicações, realizando trabalhos para Empresas Prestadoras de Serviços.