WirelessBRASIL

WirelessBrasil  -->  Bloco Resistência  -->  Seleção de textos da jornalista Dora Kramer   

Esta é a página inicial do website "Seleção de textos da jornalista Dora Kramer"


Esta página contém uma seleção de matérias do website/arquivo "Seleção de textos da jornalista Dora Kramer" de Outubro de 2015

Meses anteriores
: 2015 - Setembro - Agosto - Julho - Junho - Maio - Fevereiro - Janeiro / 2014 - Dezembro - Novembro - Outubro - Setembro - Agosto - Julho - Junho

Dora Maria Tavares de Lima Kramer (foto) nasceu em 5 de abril de 1955, no Rio de Janeiro (RJ). É jornalista formada pela Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, em São Paulo (SP), em 1977.
Começou a carreira aos 18 anos, quando ainda cursava Jornalismo, escrevendo para o extinto Diário Popular (SP). Após passagem pela Agência Folha (SP), foi repórter de O Estado de São Paulo (SP) na década de 80.
Nos anos 90, foi trabalhar na sucursal brasiliense do jornal, focando ainda mais a carreira em cobertura política. Nesse período, publicou, junto com Pedro Collor de Mello, o livro Passando a limpo – a trajetória de um farsante (Record, 1992), que se tornou um best-seller. A obra relata os bastidores do governo federal, na época em que era comandado por Fernando Collor.
Em 1995, passou a escrever a coluna Coisas de Política, no Jornal do Brasil (RJ), substituta da tradicional Coluna do Castello, na época escrita pelo jornalista Marcelo Pontes, onde ficou até meados de 2000. No ano seguinte, foi convidada pelo Grupo Estado para assumir a coluna de política do jornal O Estado de S. Paulo (SP), também publicada em diversos outros jornais do país.
Escreveu e publicou O Resumo da História (Objetiva, 2000), onde fez uma retrospectiva de quatro anos e meio de sua coluna política no Jornal do Brasil, e O Poder pelo Avesso (Barcarolla, 2010), onde apresenta ao leitor os caminhos da política brasileira e seus protagonistas como uma ficção, cujos capítulos se complementam e alinhavam uma história única.
De volta ao Rio de Janeiro, após 22 anos morando em Brasília, Dora hoje escreve crônicas diárias para os jornais O Estado de S. Paulo (SP) e O Dia (RJ). É também colunista das rádios Band News (SP) e JBFM (RJ). É considerada uma das grandes matriarcas do jornalismo político no país.[Fonte]
E-mail: dora.kramer@grupoestado.com.br


Outubro 2015

Seleção de textos (clique nos títulos para ler na fonte):

Leia na Fonte: Estadão/Colunas
[11/10/15]  Gênios indomáveis

Quando o governo parece ter esgotado sua cota de tiros no pé, eis que alguém no Palácio do Planalto renova o estoque e põe em uso a máxima de Millôr Fernandes sobre a miopia funcional de determinadas autoridades: “Sua excelência chegou ao limite da ignorância e, no entanto, prosseguiu”.

No caso da presidente Dilma Rousseff e seus conselheiros, chegaram ao limite da capacidade de errar, mas optaram por seguir adiante no caminho torto do equívoco. A despeito de opções mais razoáveis, diante do abismo escolhem dar um passo à frente. Comprovam a ideia de que o que é ruim, com algum esforço, sempre pode piorar.

Dilma não ganha uma e isso impressiona a todos. Busca-se, em todas as rodas de conversa, a razão para tal coleção de fracassos. O exame detalhado do cenário indica, no mínimo, a existência de dois erros de origem: o pressuposto de que o poder do governo seja maior do que verdadeiramente é, e a cegueira e a surdez para o mundo ao redor.

A presidente tem, em seu entorno, bons conselheiros, gente de visão, com acuidade estratégica para analisar o quadro e orientar os passos. De memória, cito três: Delcídio Amaral, líder do governo no Senado, Aldo Rebelo, ministro da Defesa, e Jaques Wagner, chefe da Casa Civil.

Delcídio já a alertou sobre a necessidade de “zerar” o governo e, sempre que pode, vale-se da proximidade pessoal para dar a Dilma a dimensão do desastre. Aldo tem um diagnóstico preciso sobre o erro de origem: “O governo subestimou a política e superestimou a força do PT”. Wagner tomou posse na Casa Civil com discurso de conciliação, em claro antagonismo ao estilo do antecessor.

A presidente, no entanto, prefere ouvir os maus conselhos de Aloizio Mercadante, Miguel Rossetto e outros cuja percepção da realidade é tão torta quanto a dela. Dilma escuta quem lhe diz o que ela quer ouvir. O problema é que ela pensa mal. Característica evidenciada pela fala atrapalhada. Pensamento confuso resulta em expressão oral desordenada. Os “gênios” dos quais a presidente se cerca são tão míopes quanto indomáveis. Assim como ela, que autorizou fabulações insustentáveis.

A começar pela lenda da “faxina” ética de brevíssima duração. Método herdado do antecessor e mentor. Na confrontação entre fato e versão, Dilma teve a primeira grande derrota quando precisou voltar atrás e a sociedade começou a perceber a falsidade das coisas. Ali teve início a derrocada, mas o PT não percebeu.

Continuou atuando - e aí dando incentivo à presidente - como se os tempos ainda fossem os de Lula, quando todas as bobagens podiam ser ditas e todos atentados (à lógica, às instituições, à ética, à civilidade, à democracia) podiam ser cometidos em nome da “justiça social”, não obstante capas pretas do PT estarem naquela altura prestes a dar expediente na cadeia.

O partido, o governo, a presidente já não podiam comprar as brigas contratadas por Luiz Inácio da Silva. Teria sido a hora de perceber e parar. No entanto, prosseguiram. Compraram a briga perdida com Eduardo Cunha, compraram a derrota antecipada na tentativa de alijar o PMDB, compraram uma batalha contra o ministro da Fazenda, compraram confronto com o Legislativo, com o Judiciário, com a verdade, de onde saíram da realidade e deram-se perfeitamente mal.

Aliança maldita.
Enquanto a oposição der o benefício da dúvida ao presidente da Câmara, vai sofrer o malefício da certeza exposta nas provas sobre a existência das contas na Suíça.

Da onça.
Eduardo Cunha já avisou a quem de direito no poder: se cair, não cai sozinho.


Leia na Fonte: Estadão/Colunas
[07/10/15]   O diabo a quatro

A presidente Dilma Rousseff pede que os políticos coloquem os interesses do Brasil acima de qualquer coisa. É a última a ter autoridade para fazer esse apelo porque é a primeira a colocar seus interesses à frente de tudo.

O País está pagando a fatura que o governo federal espetou na conta da desorganização total das finanças públicas para garantir a reeleição de Dilma Rousseff. A respeito disso não há dúvida, concordam leigos e especialistas.

Esta pode ser vista como a boa notícia, já que é de todos conhecida. A má notícia é que o fundo do poço talvez ainda esteja bem distante, pois o governo agora não se inibe de fazer qualquer negócio (o “diabo”?) para tentar evitar que prospere na sociedade, no mundo político e no universo econômico a tese de que a solução para a crise é a interrupção do mandato da presidente da República.

Dilma não mediu consequências na campanha e continua não medindo agora. Governou com o olhar fixo nos palanques e agora governa com o único objetivo de se manter na cadeira presidencial. O País que se vire.

É o que se vê quando a presidente da República deixa que seu ministro da Fazenda seja fragilizado publicamente sendo ele, ao menos em tese, a figura-chave no prometido ajuste das contas públicas. Dilma é diligente quando se trata de chamar atenção do operador de teleprompter, do funcionário que lhe pede para dar prioridade à passagem de deficientes físicos em solenidade do Palácio ou do mestre de cerimônias que não anuncia corretamente o nome de um ministério.

Muito zelosa com as firulas que lhe são caras, a presidente não se mostra minimamente desconfortável com o bombardeio sobre o ministro Joaquim Levy nem parece preocupada com as consequências disso.

Do mesmo modo, pouco está ligando para o efeito da tentativa de procrastinar uma decisão do Tribunal de Contas pedindo o afastamento de um ministro cujas declarações desagradam ao Palácio do Planalto. Uma afronta às instituições, porque tal atitude caracteriza a intenção de interferir no andamento de um processo em órgão independente do Executivo. Vai perder e, se no anunciado recurso ao Supremo Tribunal Federal a presidente conseguir derrubar uma decisão baseada em critérios técnicos, de pura contabilidade, a Corte estará corroborando a interferência.

O mesmo desinteresse por qualquer tema que não seja a manutenção de seu mandato Dilma Rousseff demonstra ao fazer uma reforma ministerial na perspectiva exclusiva de garantir uma rede de proteção no Congresso, sem levar em conta a competência dos titulares e a eficiência das pastas. Enquanto a saúde pública está entregue às baratas (em alguns hospitais, literalmente), a presidente faz a troca de ministros sem se referir nem por um breve momento à política para o setor. Quer saber quantos votos o PMDB pode lhe garantir na eventualidade de um pedido de impeachment tramitar no Parlamento.

Pois ontem a presidente teve o exemplo do quanto foi ineficaz sua negociação com o escalão inferior do PMDB, ao não conseguir que sua uma base de apoio supostamente refeita assegurasse quórum mínimo para uma sessão de interesse do governo – votação de vetos presidenciais. O esvaziamento ocorreu na Câmara. Faltaram 60 deputados e metade da bancada pemedebista não apareceu. O líder havia sido o interlocutor privilegiado da presidente na reforma.

Dilma pode até vir a vencer no mérito – inclusive porque o Congresso não quer ser responsável por entornar de vez o caldo da economia –, mas o recado foi dado: nem sempre é dando que se recebe.


Leia na Fonte: Estadão/Colunas
[04/10/15]  Governante governada

Tempo houve, não faz muito, que Dilma Rousseff pretendia mandar até no uso e costume da língua portuguesa. Exigiu ser chamada de “presidenta”, no que foi atendida por subordinados. Funcionais e mentais. Hoje a presidente Dilma Rousseff já não manda em coisa alguma. Nem no governo nem em si.

Na prática, tornou-se impedida de governar. Em preciso jogo de palavras, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso bem definiu a situação ao dizer que depois dessa nova rodada de negociações com o baixo-clero do PMDB Dilma não governaria, seria governada.

É de se acrescentar a título de reforço: não preside, é presidida. Por Luiz Inácio da Silva, pelo andamento da Operação Lava Jato, pela vontade dos ditos aliados, pela repercussão de suas ações. A presidente está entregue aos acontecimentos, na realidade, interditada.

O afastamento de Aloizio Mercadante da Casa Civil é um ato que não soluciona. A saída dele não resolve. Na avaliação de colegas de governo e de partido, Mercadante fora da Casa Civil não é uma solução para a crise, mas sua permanência seria garantia do agravamento da situação.

O problema é que na Casa Civil ou na Educação, Dilma vai continuar ouvindo Aloizio Mercadante, seu pior conselheiro.

Vida Severina. Por um “pixuleco” de R$ 10 mil mensais pagos pelo dono do restaurante interessado em operar na Câmara, Severino Cavalcanti perdeu a presidência da Casa. A situação do deputado Eduardo Cunha é muito mais complicada.

Não porque mantenha contas em bancos suíços. Não é proibido depositar dinheiro no exterior. Qualquer pessoa pode abrir uma conta de maneira legal e transparente. Mas um parlamentar não pode mentir sem que o ato se configure quebra de decoro. E Eduardo Cunha mentiu na CPI da Petrobrás ao negar peremptoriamente a existência não de quatro, conforme apontam as investigações, mas de uma conta sequer.

Se nessas contas estiver depositado dinheiro de origem ilegal, configura-se um crime. Nada menos do que quatro delatores “premiados” afirmaram terem sido intermediários de pagamento de propina ao deputado Cunha. Quando da primeira denúncia, ele fez um escarcéu. Rompeu com o governo e atribuiu ao Planalto uma urdidura contra ele. Criava um factoide a fim de desviar a atenção sobre o fato.

E fato é que o presidente da Câmara perdeu a condição de presidir a Câmara. Mais não seja até a comprovação das acusações, porque mentiu. Mentira que levou à cassação de Luiz Estevão, no Senado, à renúncia de Renan Calheiros ao posto e à delegação ao ostracismo de figuras como Antônio Carlos Magalhães e Jader Barbalho.

Quanto mais adiar a renúncia à presidência, mais o presidente da Câmara dos Deputados desgasta a instituição.

Viravolta. Marta Suplicy já foi odiada nas hostes tucanas. Hoje, filiada ao PMDB, é muito bem recebida na oposição. Há gente de altíssimo calibre no PSDB disposta a votar em Marta para a prefeitura de São Paulo, caso o partido de José Serra e Fernando Henrique Cardoso escolha João Dória Júnior como candidato à Prefeitura no lugar de Andrea Matarazzo.

Na pesquisa qualitativa feita pelo partido, Andrea é visto menos como político e mais como administrador capaz de dar conta dos problemas de São Paulo porque é honesto e tem amor à cidade.


Ler mais em Gazeta do Povo (Colunistas) ou no Estadão (Colunas)